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Uma vez Totone recebeu a visita de uma mulher. Era uma feiticeira que queria chaleirar a casa do velho e ver se podia dar cabo dele. Totone conheceu-a muito bem.
VI CENA / NHÔ ROBERTO, CHICO ZEPA, NHÔ JOÃO JOANA, CHIQUINHO, NHA TUDINHA E TOI
Em casa de Chico Zepa. Ele faz uma grande festa a Nhô Roberto. Fala muito alto e, de vez em quando dá uma gargalhada.
NHÔ ROBERTO – (depois de um longo e apertado abraço) Onde está o "avacote" que me prometeste?
CHICO ZEPA – Está a bordo...
NHÔ OBERTO – Com certeza? Olha que sempre faltaste no estreito ao que prometeste no largo...
CHICO ZEPA – Juro! Nha Guida, como está? E Nha Iria, Nhô Luís, toda aquela velhada?
NHÔ ROBERTO – Rebolando.
CHICO ZEPA – (para Nha Tudinha) Vi seu filho em "Provedence, Rhode Island". Está bom. Parece que vem em Outubro.
NHA TUDINHA – Obrigada, Chico… obrigada. Ele está de saúde? Não está muito magro?
CHICO ZEPA – Manuel? Ele está gordo, rijo e bonito! Altarão como ele é… se cá era bonitão… lá não preciso nem dizer.
NHÔ JOÃO JOANA – Ainda tem "light-ship" à entrada de "Betfete"?
CHICO ZEPA – Ainda. Mas agora Governo mandou pôr uma bóia de sino perto do "stream","you know…"
NHÔ JOÃO JOANA – Quando eu assistia por aquelas paragens, era preciso olho muito aberto. Mas nunca me aconteceu nada, porque o capitão Luís conhecia toda a costa como a palma das suas mãos.
CHICO ZEPA – Aquilo hoje está tudo mudado… há quanto tempo você esteve por lá, Nhô João?
NHÔ JOÃO JOANA – Há anos como areia, rapaz. Com certeza ainda não eras nascido…
CHICO ZEPA – "Oh! Gee"!
CHIQUINHO – (depois de cumprimentar a todos) Chico, notícias do meu pai?
CHICO ZEPA – De Nhô António Manuel? Ele está forte, rijo e valente. Pesado de dólar.
Numa algazarra e beber de grogue, acaba a cena.
VI CENA / NHA ROSA CALITA, MAMÃE VELHA, CHIQUINHO TÓI E MAMÃE
NHA ROSA – Desgraçado do Chico Zepa…
MAMÃE VELHA – O que aconteceu com ele?
NHA ROSA – Perdeu o barco. Fincou aí a abusar dos seus namoros com Antónia Bia… prendeu-se no Caleijão, e quando chegou à Preguiça já o seu navio, o "Wanderer" tinha montado a ponta da Vermelharia.
MAMÃE VELHA – E gora o que vai ser a vida dele? Ele que não gosta de rabo de enxada. Pegou a sorte e deixou "caprir" logo de seguida.
NHA ROSA– Eu não sei o que vai ser a vida dele. De jeito que é refilão. Soberba tem corpo roliço. Dizem que ele despreza os homens da enxada e que disse que não tem raça de negro.
CHIQUINHO – Mas ele disse que não vai ficar aqui. Que dá um salto em S. Vicente e embarca fugido em qualquer vapor. Ele disse que quem não saiu daqui não sabe o que é o mundo.
NHA ROSA – Também ele vai ter que aguentar novamente com as descomposturas da sua mãe.
MAMÃE – Eu me lembro um dia, ainda Chico não tinha embarcado, Zepa veio aqui em minha casa e disse: "Não sei a quem esse moço saiu... a mim não, que vou levando a vida consoante Deus é servido; ao pai também não, que era um burro de trabalho…"
NHA ROSA – Os outros rapazes fazem pouca farinha com ele. Sabem, ele tem muita lábia e sabe engodar as namoradas dos outros. E a quase todas foi pondo no peito.
TÓI MULATO – Vou estudar contigo hoje a noite…
CHIQUINHO – Porque não levas o meu livro como de costume?
TÓI MULATO – Não. Nós vamos estudar juntos porque o Sr. Carvalho disse que nós os dois temos que apanhar uma distinção. Se eu levar o teu livro como que tu estudas para o exame? Olha que segundo grau não é brincadeira.
CHIQUINHO – Não te lembras que o Sr. Carvalho vai nos dar aula extraordinária de Aritmética e História?
TÓI MULATO – Está bem. Então eu levo. Chiquinho, eu não tenho fato novo para vestir no dia do exame, na vila. Vou eu mesmo botar umas chapas nas minhas calças de cotim militar.
CHIQUINHO – Eu vou levar para Estância calção azul e blusa branca, que mamãe bordou os emblemas da fé, esperança e caridade. (Tói Mulato sai, despedindo-se de todos).
VII CENA / MAMÃE VELHA, CHIQUINHO E MAMÃE
Chiquinho preparado para sair de casa.
MAMÃE VELHA – (em lágrimas) Jesus, como o tempo se parece com pano de pente, mergulhado em pote de tinta! Parece que ainda ontem tive Chiquinho nas mãos, nu como a graça do Altíssimo o mandou para este mundo. Tão miúdo, não excedia duas mãos-travessas…
CHIQUINHO – Roguem por todos nós para passarmos ao exame.
MAMÃE VELHA – Pela paixão do Santo Filho do Senhor, que passou com a cruz às costas na Rua da Amargura, seja o caminho que vais andar hoje tão liso e direitinho como a consciência do justo, limpa do pecado do nosso primeiro pai!
MAMÃE – Vai com Deus meu filho. Que a Dinha Lua te ilumina a memória para fazeres uma boa prova.
VIII CENA / CHIQUINHO E TÓI MULATO
CHIQUINHO – Tói Mulato, eu atrapalhei-me naquela conta da área… por isso que não apanhei distinção.
TÓI MULATO – Era fácil. Basta aplicar a fórmula e seguir a ordem.
CHIQUINHO – Como passamos na quarta classe em primeiro e segundo lugar, tu e eu, vamos pedir os nossos grandes para nos deixarem ir visitar Totone Menga Menga.
TÓI MULATO – Sim, eu peço a minha dona. Ela costuma dizer-me – quando não estava com o bico cosido – que Menga Menga é como o Rei Bandeira, que distribuía doces e frutas à meninência no seu palácio de pedra de cantaria…
CHIQUINHO – Não rapaz. Penso que Totone é um homem que quis virar feiticeiro, mas não conseguiu, por não ser capaz de comer inocentes. Como é muito bom, ficou a conhecer os segredos das feiticeiras, que nada podem com ele.
TÓI MULATO – Dizem que todas as noites em volta da casa de Totone há música que os anjos do Céu vêm tocar por mandado de Nossenhor. As bruxas ficam ao longe, cheias de raiva.
CHIQUINHO – Uma vez Totone recebeu a visita de uma mulher. Era uma feiticeira que queria chaleirar a casa do velho e ver se podia dar cabo dele. Totone conheceu-a muito bem.
TÓI MULATO – Totone conhece todo o mundo.
CHIQUINHO – Totone conheceu-a bem e pôs na sua cabeça amarrá-la. Chamou a mulher para o quintal, para ir espiar um galo de crista vermelha e branca que tinha lá.
TÓI MULATO – Se calhar era uma bruxa que Totone tinha pegado.
CHIQUINHO – Exato e qual. A mulher foi, contente de ver o quintal de Totone, esperando descobrir qualquer coisa. Totone disse-lhe: "Por favor você espie se aquela galinha tem ovo». A mulher foi espiar e Totone depressa voltou para dentro e num dizendo-fazendo virou de pernas para o ar o banco em que a bruxa tinha estado sentada. Quando Totone voltou para o quintal, disse: "Vamos para dentro..." Ela bem queria ir, mas não conseguia passar a soleira da porta porque, já se vê, tinha sido amarrada. Totone muito sério, mas rindo para dentro. Ela dançou, cantou, fez o diabo-a-quatro. Depois virou burro, mula, porco, cabra. Por fim, Totone, condoído, rezou umas orações e desamarrou-a. Ela virou figura de gente. Totone disse-lhe: "Para nunca mais se meter na minha vida."
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