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Tenho um colega de São Vicente na escola que fala o crioulo cheio de x. Também quando pegamos queda ele é sempre derrubado. Quando levanta com a cara franzida maneja a lâmina de barba e diz: "Dou-te um corte fixe".
III CENA / JOCA, CHIQUINHO, PITRA E GUIDA
Em casa do Joca.
JOCA – Olha o Chiquinho!... tu é que vais comigo assistir à corta? (Para Guida) Guida arranja café para Chiquinho. Arranja-lhe um cafezinho bom, com farinha-de-pau e torresmos. Pitra, vai mudar a mula. Ela já bebeu? Guida, arranja também café para Pitra. (Senta-se ao pé do Chiquinho) Chiquinho, como é que deixaste a nossa gente lá em casa? Ainda a Mamãe Velha me desonra muito?
CHIQUINHO – Está tudo bem, Tio Joca.
JOCA – Muito bem. (Lê um bilhete que Pitra lho entrega) Olha, tu vais para a aula do Sr. Martins. Eu sei que tu vais gostar. Muitos meninos, companheiros para brincadeiras no largo. Contanto que estudes. Lê este bilhete que o Pitra me trouxe para ver o teu adiantamento.
GUIDA – Padrinho, está aqui uma mulher que quer comprar açúcar e petróleo.
JOCA – A loja está fechada! Hoje não vendo, porque é dia de festa. Chegou Chiquinho... traz-me um seca suor. Chiquinho, tu ainda não usas... depois verás que isto não é mau. (Guida põe a mesa para Joca e Chiquinho. Pitra come em pé) Guida, vamos à casa da Bia Lai mostrar aos meninos o Chiquinho. Chiquinho, tu vais conhecer os teus parentes... teus primos. (Acabam de comer e saem).
IV CENA / CHIQUINHO E JOCA
JOCA – Chiquinho, conta lá como foi o teu primeiro dia de aula com Sr. José Martins
CHIQUINHO – Gostei muito Tio Joca. O professor mandou toda a classe ler em voz alta o "João da Câmara". Corrigiu a Dick que estava a ler com uma voz muito fina. Disse-lhe que um homem deve ter voz de homem. Ele ordenou o Nasolino a dar seis palmatoriadas ao Maninho por não saber a lição que lhe tinha passado anteontem; os rapazes da terceira classe faziam-nos bioco, a troçar da nossa leitura; um garoto foi dar parte ao professor que um companheiro estava a beliscá-lo nas pernas. O professor mandou o Nasolino aplicar mais quatro palmatoriadas. Nasolino apanhou um menino a furtar batata assada da bolsa de um aluno da Ribeira dos Calhaus. O ladrão foi chamado à presença do professor que lhe chamou "menino sem vergonha" e mandou aplicar-lhe doze palmatoriadas. O professor ralhou com Mano porque era a terceira vez que lhe mandava forrar o seu "João da Câmara". Mano lia muito alto e depressa, atropelando a pontuação. Ele dizia "encôsta" em vez de "encósta". O professor mandava-lhe repetir com ele: "en-cós-ta!" Nasolino tomou-me a lição individual e disse ao Sr. José que eu estava fraco em tabuada… o Sr. Martins passou-me para amanhã tabuada de multiplicar.
JOCA – Para ser um bom aluno tem que ter disciplina nos estudos. Vou te fazer um horário para a distribuição do teu tempo depois da aula. Sabias que eu fui um bom aluno do Seminário? Aprendi a pronúncia com o cónego Coimbra. Não é para se gabar, mas como eu não havia para reconhecer e classificar as figuras da estilística. Os companheiros até me puseram o nome de "Joca Metonímia". (Levanta-se e segura Chiquinho por uma mão) Vamos lanchar, depois faço o teu horário.
CHIQUINHO – Tio Joca, eu sinto em ti um irmão mais velho. Por isso nunca posso concordar com a severidade com que Mamãe e Mamãe Velha te desonra.
JOCA – Não ligue, Chiquinho!
CHIQUINHO – Tenho um colega de São Vicente na escola que fala o crioulo cheio de xx. Também quando pegamos queda ele é sempre derrubado. Quando levanta com a cara franzida maneja a lâmina de barba e diz: "Dou-te um corte fixe". Sabes, São Vicente não tem comer... lá não tem milho, não tem feijão, não tem mandioca...
JOCA – São Vicente não tem nada disto de facto, mas tem dinheiro para as comprar. Em S. Vicente há outras coisas que também não temos em São Nicolau. Lá tem vapor, tem soldados, tem teatro...
CHIQUINHO – Então tudo o que ele nos contou é verdade?
JOCA – O que é que ele vos contou?
CHIQUINHO – Que lá tinha tudo. Lojas cheias de coisas lindas. Soldados que faziam exercícios. Estrangeiros que desembarcavam dos vapores e voltavam para o bordo carregados de bolsinhas de sementinha.
JOCA – É como ele vos disse.
CHIQUINHO – Então amanhã vou falar com os meus colegas para lhe pedirmos desculpas.
JOCA – Isso mesmo, meu sobrinho. Olha, próxima semana vamos à um casamento que eu fui convidado na Ribeira da Prata.
CHIQUINHO – Eu tenho medo de ir Ribeira da Prata. Contaram-me que aquela ribeira é povoada de feiticeiras.
JOCA – É tudo "estórias", Chiquinho. Eu, que já andei Ceca e Meneca, nas horas minguadas da noite, nunca encontrei coisa ruim.
CHIQUINHO – Então Nha Rosa Calita mente?!
JOCA – Não quer dizer que ela mente… ela conta "estória".
CHIQUINHO – Mas então por que é que Tio Joca, sempre que carrega de água… que apanha fusca, canta aquela música "Ribeira Prata, Larga-me da mão…" eu tinha vontade de conhecer a rocha "escribida", mas também tinha medo das feiticeiras de lá.
JOCA – Vais aproveitar enquanto não voltares para Caleijão. A mamãe pode mandar-te buscar a qualquer altura. Por mim tu ficavas cá para sempre. Ao menos, estando tu cá, entretenho-me a tomar-te as lições. Assim fico com a certeza de que ainda sei ler. Antigamente eu sentia gosto em ler, tinha a impressão de que o futuro me pertencia. Gostava de vestir bem. Andava atrás das raparigas para namoros sem consequência. Hoje é isto: cheio de filhos e bebedor de aguardente.
Chiquinho dirige-se a ele e abraça-o com ternura, a cena finda.
V CENA / CHIQUINHO, TÓI MULATO, MAMÃE VELHA E MAMÃE
Em casa de Chiquinho Tói Mulato entra e começa a chorar.
CHIQUINHO – Por que levaste, Tói?
TÓI MULTO – A avó deu-me dinheiro para comprar três litros de milho. Na volta fui salvar Nha Lalaga, que estava doente, encontrei-a muito fraca, com os meninos em volta da cama, chorando de fome, deixei um litro de milho e a avó açoitou-me.
CHIQUINHO – Devias ter dito o que fizeste com o milho; a tua dona não te açoitaria.
TÓI MULATO – Se eu lhe dissesse ela iria buscar… e eu não queria.
CHIQUINHO – Se a tua mãe estivesse viva, não apanhavas assim.
MAMÃE VELHA – (assanhada) Eu não sei por que é que aquela criatura não deixa o anjinho de Cristo sossegado. Tói Mulato, vem ficar connosco por um tempo. Ao menos, assim, estás livre daquela víbora velha.
TÓI MULATO – Ela não pode dormir sozinha.
MAMÃE – Tói Mulato é o menino mais direito de Caleijão.
CHIQUINHO – Quantos anos tem a tua dona, Tói Mulato?
TÓI MULATO – Não sei.
CHIQUINHO – Nha Totona é a única pessoa aqui que não nos deixa gadanhar nos cunhais da casa dela à procura de ovos e pardalinhos.
MAMÃE – Coitado de Antoninho de Nh’Ana Lanta… dizem que não encontrou lugar nos barcos de baleia que aqui estão. Está condenado a continuar a vida no rabo da enxada, ganhando três tostões por dia.
TÓI MULATO – (para Chiquinho) Está um navio grandão lá no porto cais.
CHIQUINHO – Foste a bordo?
TÓI MULATO – Não me deixaram. Eu bem queria ir, e pedi a um rapaz de bote que me perguntou se tinha lá parente. Como disse que não tinha lá ninguém, que só queria ir por curiosidade, ele perguntou-me se queria ir ver a minha avó. Que o navio não era brincadeira de menino.
CHIQUINHO – Ficaste zangado?
TÓI MULATO – Fiquei. Mas ele ficou a rir.
CHIQUINHO – Dizem que os navios trazem no cocuruto dos mastros as almas dos capitães que morreram…
TÓI MULATO – Eu, quando for grande, serei capitão de navio. Quando eu morrer a minha alma ficará espiando do alto dos mastaréus.
CHIQUINHO – Continuarás sempre espiando dos mastros? Não poderás aguentar o frio.
TÓI MULATO – Não me importa o frio. Ficarei lá para ensinar o caminho aos outros.
CHIQUINHO – Nhô João Joana disse que não é agulha que mostra o caminho, mas alma dos capitães que segreda ao homem do leme: "Para a direita, para a esquerda…"
TÓI MULATO – Chiquinho, vamos visitar Chico Zepa. Ele voltou da América.
CHIQUINHO – Vamos. (Saem).
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